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A língua da baba e a essência da bulgaridade

Redescoberta ou reinvenção da identidade, o que importa é que os descendentes dos migrantes bessarabianos vivem um maravilhoso processo de etnogênese em terras brasileiras

 

Por Eduardo Rascov

Na adolescência, quando perguntavam de onde vinha meu nome, ficava sem jeito e respondia: “Do país dos ovs”. Não sabia ao certo o lugar de origem dos meus avós paternos. Seriam eles russos, como diziam ao meu redor? Ou búlgaros, como os imigrantes às vezes se chamavam? Ou eram romenos, já que entraram no Brasil com o passaporte da Romênia? Aliás, a Bessarábia é um país? Às vezes, quando estava sentado no sofá da sala assistindo televisão, meu pai me chamava e dizia: “Filho, pega a paduschka no quarto para mim”. Eu fingia não entender o significado da palavra paduschka e ele sempre repetia: “Filho, não lembra? Paduschka é travesseiro na língua da baba”. Mas exatamente qual era a “língua da baba”? O velho Ivan não tinha certeza e não se arriscava a dizer o nome. Ele havia sofrido muito na escola por falar português “tudo errado”, gostava de contar, quando entrou no curso primário atrasadíssimo aos 10 anos. Era o ano de 1942 e o Brasil se preparava para mandar soldados guerrear na Europa contra o nazifascismo.

A irmã mais velha de meu pai se chama Nádia. Coube a ela se aproximar mais dos vestígios da cultura bessarábicada no Brasil. Tia Nádia aprendeu sozinha a ler e a escrever no alfabeto cirílico. Era ela quem ajudava meus avós a redigir cartas aos parentes na Bessarábia. Certa vez, tia Nádia estava lendo um livro das Testemunhas de Jeová, religião estadounidense que minha família passou a seguir nos anos 1970. Havia na publicação trechos em diferentes idiomas. De repente, tia Nádia exclamou:

-        Olha aqui, essa é a língua da baba!”.

-        Tem certeza, tia Nádia?

-        Sim, absoluta. É o mais próximo que encontrei até hoje do jeito que a baba e o

diado falam.

Peguei o livro e vi letras cirílicas que pareciam grego. Não entendia nada, mas havia uma nota de rodapé em inglês que dizia: “Text in Macedonian”. Era macedônio! “Macedônio é a língua da baba”, gritei para o resto da família. Depois pensei: “Talvez a ‘língua da baba’ seja o búlgaro antigo, cristalizado na Bessarábia, com características semelhantes ao macedônio moderno”. Percebi que a luta identitária e a busca do reconhecimento, tão fortes na América Latina massacrada pelo colonialismo, também está presente em descendentes de minorias imigrantes que, apesar do privilégio branco, passaram o diabo na mão das elites locais, subordinadas à ordem capitalista e à divisão internacional do trabalho.

 “Viajei até a Bulgária e não entendi o que eles falam”, me disseram em 1983, na aldeia de Gassan-Batar. Apesar de se virem como búlgaros e ser essa a nacionalidade que constava no passaporte interno soviético, a língua falada pelos búlgaros da Bessarábia se distanciou do búlgaro moderno. Claro, os primeiros búlgaros chegaram na Bessarábia ainda no século XVIII, sob as asas da déspota esclarecida czarina Catarina II, a Grande, que reinou de 1762 a 1796. A tendência, nesses casos, é a cristalização do idioma falado pela comunidade isolada. 

Foram esses búlgaros bessarabianos, nascidos sob o Império Russo, portanto, fluentes em russo, que imigraram em 1926 para o Brasil, quando viram suas terras dominadas pelos romenos. Vieram com passaporte romeno. Daí a confusão. Nossos ancestrais eram russos, búlgaros ou romenos? A decisão de emigrar, tão doida para camponeses apegados à terra, e as desventuras no Brasil, principalmente, a tragédia da Ilha dos Porcos - esses são fatores que provavelmente tenham contribuído para o silenciamento auto-imposto desses imigrantes. Eles não queriam tocar no assunto. Isso fez com que seus descendentes se distanciassem da cultura original de seus pais. Esse apagamento identitário precisava acabar.

Há casos, por exemplo, de brasileiros descendentes de búlgaro da Bessarábia que procuraram a aldeia de seus ancestrais equivocadamente no território da Bulgária moderna. Ou de pessoas que, na dúvida, pediram a cidadania romena, pois conservavam os passaportes de seus avós emitidos por esse país. Outros se achavam ciganas, como a poeta Isabela Penov, autora do livro Do dilúvio entre tuas coxas, entre outros.

Em 1996 foi criada a Associação Cultural do Povo Búlgaro no Brasil - Bulgari com o objetivo de combater essa confusão e reavivar a história perdida. Mas essa mensagem não tem tocado os jovens brasileiros descendentes de bessarabianos, mais preocupados com outras questões identitárias. Vivemos num país racista cujo apagamento da população de origem indígena e africana é incomensuravelmente maior. O velho Ivan é um legítimo filho de búlgaros bessarabianos. Ele nasceu seis anos depois que os pais dele chegaram ao Brasil. Mas minha mãe é o resultado da mistura de várias etnias, como negra, indígena, portuguesa e alemã. Conheço muito mais a história do meu pai do que a da minha mãe. Ivan Rascov, meu velho, faleceu em 10 de abril de 2024, aos 91 anos. Muitas cenas brotaram na minha memória desde então. Entre as coisas dele, encontrei os quatro tomos escritos na década de 1960 por um primo da minha baba.

Hoje faço parte da comissão de organização do centenário, que será comemorado em 25 de abril de 2026. Em uma reunião virtual para discutir essa festividade, o ex-presidente da Bulgari, Nelson Gregov, se mostrou preocupado com a “essência da bulgaridade”. Ora, ele, seus filhos e netos são nascidos no Brasil e ainda assim estão à procura de certa bulgaridade perdida, seja lá o que isso for. Nem os búlgaros sabem. Rumen Stoianov, escritor e professor de língua búlgara mandou um e-mail para Jorge Cocicov com uma explicação, digamos, pouco esclarecedora sobre a sua origem: “Os búlgaros de hoje são uma fusão entre três povos: os trácios (deles as personagens mais conhecidas são Espártaco, Orfeu e Dionísio), os bulgáricos ou protobúlgaros e os eslavos. Os bulgáricos - eles não diziam que eram bulgáricos ou protobúlgaros, estas duas denominações são muito tardias, introduzidas pelos cientistas para diferenciar aqueles búlgaros, antes de se misturarem com os trácios e os eslavos - são oriundos duma parte do que agora é Afeganistão e, antes e depois de fundarem a Bulgária Danubiana, em 679, tinham outras formações estatais em outras partes” (sic).

A deriva da “essência da bulgaridade” começava quando os imigrantes aportaram no Brasil. Eles eram registrados como romenos e com nomes transliterados sem nenhuma regra, de tal forma que membros da mesma família podiam ter sobrenomes diferentes. Naquela época os eslavos eram vistos pelas autoridades como simpatizantes do comunismo. Temiam que houvesse entre eles agentes da Terceira Internacional disfarçados. As cartas trocadas com os parentes bessarabianos eram raras e ficavam retidas na censura e às vezes não eram entregues ou remetidas. A falta de comunicação com a terra de origem piorou com o passar do tempo, pois os filhos dos imigrantes não aprendiam a ler em cirílico. Os que nasciam aqui eram brasileiros por jus soli (direito do solo), adotado no país, mas considerados búlgaros por jus sanguinis (direito de sangue) adotado por Bulgária, Romênia, Ucrânia e Rússia. Boa parte abandonou a religião ortodoxa e se converteu a uma igreja evangélica tradicional, como os Batistas.

Há uma crise de identidade instalada. Os descendentes dos sobreviventes da tragédia da Ilha dos Porcos - e de outros que chegaram antes ou depois - estão por aí (algumas crianças nascidas na Bessarábia antes de 1926 ainda vivem!) em busca de uma identidade perdida no tempo e no espaço. Neste ano se comemora o centenário da chegada deles ao Brasil, encerrando a era das grandes imigrações ao país. É uma história esquecida. Atualmente, os descendentes desse povo tentam reatar laços com suas origens, mas encontram o território de seus ancestrais ardendo numa guerra fratricida. Acompanham com ansiedade as peripécias das negociações pela paz de Putin, Trump, Zelensky, Otan e União Européia. De alguma forma sentem-se parte da trama de sangue urdida na terra de seus ancestrais.  

Hoje sei muito mais sobre minha origem paterna do que sobre meus ancestrais maternos. A história deles foi apagada. Quase não ficaram rastros de parentes de minha mãe, Margarida Mafra. Talvez eu possa imitar os búlgaros bessarabianos do Brasil e, num processo de etnogênese, imaginar uma essência a ser resgatada. Porque no fundo identidade é escolha. Identidade é imaginação.  

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