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Ilha

Uma tragédia que não pode ser esquecida

Cem anos depois, descendentes de bessarabianos voltam à Ilha Anchieta para reverenciar a morte sem sentido de suas crianças

Iniciação

Se vens a uma terra estranha

curva-te

se este lugar é esquisito

curva-te se

o dia é todo estranheza

submete-te

— és infinitamente mais estranho.

                                                       Orides Fontela, Rosácea (SP: Roswitha Kempf Editores, 1986)

Nesta foto vemos, em trajes típicos de camponesas búlgaras do início do século XX, Leni Armelin e Roseli Stainoff, ambas descendentes de bessarabianos, homenageando em 2023 os mortos de maneira trágica numa pequena ilha pertencente ao município de Ubatuba, no litoral paulista. Isso ocorreu há 100 e demonstra como foi difícil os primeiros tempos dos imigrantes no Brasil.

 

Sim, não foi uma integração fácil. Os bessarabianos chegavam de navio e vinham de trem do porto até a hospedaria do imigrante, no Brás. Lá faziam os procedimentos burocráticos e sanitários até os fazendeiros chegarem e os levarem ao trabalho na lavoura. Em abril de 1926 cerca de 4 mil bessarabianos esperavam na hospedaria para serem enviados às fazendas e começarem a cumprir os contratos de trabalho, quando chegou do interior um bessarabiano desgarrado. Ele havia imigrado ao Brasil um pouco antes e percebido que o prometido era mentira. Foram enganados. Nada de terra, nada de casa, nada de equipamentos, ferramentas e crédito. O que eles iriam fazer era praticamente substituir os escravos!

 

Foi uma revolta! Foi uma revolução! Os bessarabianos se recusaram a seguir até as fazendas. Queriam esclarecimento. Queriam voltar para suas terras na Europa. O Estado de São Paulo, que havia enfrentado a revolta tenentista nos anos anteriores, reagiu de modo brusco. Forçou aqueles 2 mil bessarabianos a entrarem num trem e os levou ao porto de Santos. De lá, embarcou-os na marra para a Ilha dos Porcos, próximo de Ubatuba, onde havia as instalações de um presídio desativado. Quer dizer, foram presos, sequestrados pelo Estado e mantidos sob cativeiro num lugar inóspito!

 

Os bessarabianos não entendiam o que acontecia. Como a comida era rara, resolveram fazer um panelão com papinha de mandioca, raíz  comum na hoje chamada Ilha Anchieta. Era mandioca selvagem, imprópria para alimentação a menos que se conheça a técnica indígena de purificação do veneno.  O resultado foi o envenenamento coletivo dos bessarabianos. As mortes começaram em 18 de abril de 1926. Nos próximos dias, morreriam 151 pessoas, sendo 146 crianças pequenas.

 

Uma tragédia provocada pelo Estado, que não assumiu a responsabilidade, mas cuidadosamente apagou as evidências nos anos seguintes. Chegou a ser publicado nos jornais que os bessarabianos haviam voltado para a Europa. A história verdadeira só ficou conhecida graças ao trabalho pioneiro de Jorge Cocicov, um juiz de direito, filho de bessarabianos, que descobriu o atestado de óbito de todas essas vítimas e o cemitério clandestino em que elas foram enterradas.

 

Em 2023, quase um século após a tragédia de 1926, a memória dos bessarabianos voltou à Ilha Anchieta em forma de homenagem.

A celebração teve início com uma missa na capela da ilha. Em seguida, bessarabianos, membros da administração local e o padre seguiram em procissão até o cemitério que, por décadas, permaneceu clandestino.

 

Por muitos anos, a mais de uma centena e meia de mortes – assim como o episódio da intoxicação pela mandioca brava – permaneceu esquecida pela história oficial. O cemitério clandestino foi o único testemunho material da tragédia e também de seu quase apagamento. Não fosse pela iniciativa individual de um médico local, que fez e registrou as certidões de óbito à época, talvez essa história não tivesse vindo à tona.

 

A visita dos descendentes dos sobreviventes ao drama foi profundamente tocante. Ao pisar naquele mesmo solo, refizeram um caminho interrompido pelo silêncio. A partir de seu testemunho, gestos, a história – e a vida – desses bessarabianos puderam ser revividas.

 

Ali, onde tantos inocentes perderam a vida, realizou-se uma cerimônia em memória. Cem anos depois, o percurso entre a capela e o cemitério refez a travessia entre o esquecimento e a lembrança – para que, desta vez, essa história nunca mais corra o risco de ser esquecida.

 

É por conta dessa tragédia que o centenário da imigração búlgara e gagaúza ao Brasil será comemorada em dois lugares: na Ilha Anchieta e no Museu da Imigração (antiga Hospedaria dos Imigrantes), em São Paulo, capital. Será uma oportunidade para celebrar a façanha daqueles bessarabianos e para honrar as vidas perdidas na tragédia da ilha dos Porcos.

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Depois de uma longa jornada de trabalho, eis como se encontra o Cemitério da Ilha dos Porcos, na Ilha Anchieta, onde há túmulos de crianças búlgaras/gagaúzas.

As cruzes foram substituídas , os túmulos pintados e organizados para a comemoração do centenário.

Este foi o resultado  de um trabalho coordenado pela equipe de nosso colaborador Rocha.

Tudo foi feito depois do projeto aprovação pelo  PEIA.

Em maio de 2026,  o Parque Estadual Ilha Anchieta foi palco de memória, homenagem e humanidade.

Em meio à beleza da ilha, nos reunimos para lembrar uma das páginas mais dolorosas da história da imigração búlgara e gagaúza no Brasil. Em 1926, 151 imigrantes perderam suas vidas neste lugar, entre eles, 141 crianças pequenas.

Mais do que números, eram famílias, sonhos, futuros interrompidos.

Celebrar este centenário foi também um ato de cuidado com a memória. Porque lembrar é resistir ao esquecimento. É devolver dignidade às vidas que ficaram silenciadas por tanto tempo.

A obra criada por Marina emocionou todos os presentes ao transformar ausência em presença, delicadeza em homenagem. Uma forma sensível de fazer com que cada criança fosse lembrada não apenas pela tragédia, mas pela humanidade que carregava.

Nosso mais profundo agradecimento a todas as pessoas que tornaram este encontro possível. Associação dos Búlgaros, Green Haven Ilha Anchieta, Filhos da Ilha, Monitores Autônomos, Operadores Náuticos, Projeto Entrelaces, Paróquia do Itaguá. Cada apoio, cada gesto e cada presença ajudaram a construir um momento de respeito, reflexão e memória coletiva.

 



Que essas vidas jamais sejam esquecidas.

@ilhaanchietagreenhaven

🤍

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