


Decisão de emigrar




O início
Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o contexto de vida na Bessarábia se tornou precário. Houve agravamento das dificuldades decorrentes da guerra, tais como prejuízos econômicos, território anexado por outro país, romenização, insegurança sociopolítica, perseguições políticas e cobrança abusiva de impostos. A piora das condições de vida foi agravada, também, pela recente seca prolongada na região, que arrasou a produção no campo e dilapidou o trabalho do agricultor. Tais fatores levaram a população a perder a confiança em dias melhores.
No início da década de 1920, a Romênia promovera a Reforma Agrária em terras da Bessarábia, porém, nem todos os agricultores receberam terras suficientes para sua sobrevivência. Muitos se endividaram para manter a produção. Esta situação gerou descontentamento e protestos da população da Bessarábia contra o governo da Romênia.
Na mesma década, o Brasil retomou a propaganda de estímulo à imigração de europeus para trabalhar nas lavouras de café, principalmente no interior de São Paulo. Esperava substituir a mão-de-obra dos escravizados libertados há alguns anos pelo trabalho do europeu.
Além da mão-de-obra, o governo tinha o objetivo de embranquecimento da população do país, pois a maioria era de negros e mestiços. A esperada miscigenação de imigrantes brancos europeus com os nativos associava-se, também, à ideia de progresso da nação brasileira, cuja população era tida como preguiçosa e pouco afeita ao trabalho. Este ócio seria neutralizado pela característica operosa do europeu, que traria nova configuração social e estímulo ao trabalho.
Na propaganda no exterior, o governo brasileiro exortava as benesses do Brasil: país de clima quente, com oferta de moradias gratuitas, disponibilidade de terras férteis para a lavoura e passagens pagas pelo governo.
Neste contexto, a Romênia passou a incentivar a emigração, divulgando-a por toda a Bessarábia. Exagerava sobre os benefícios prometidos pelos países interessados em receber os imigrantes como mão-de-obra. Omitia, assim, as reais condições das ofertas definidas com os países parceiros.
A Romênia facilitou a emigração para o Brasil de bessarabianos búlgaros e gagaúzes, principalmente porque eram um povo resistente às pressões, e que insistia em manter suas tradições, idioma e etnia. O objetivo do governo era obter maior espaço para os romenos, estimulando a saída em massa das demais etnias.
A emigração, autorizada pela Romênia, abrangia apenas famílias dedicadas exclusivamente à lavoura, que residissem em território romeno anexado após o final da Primeira Guerra Mundial (Bessarábia entre eles). As famílias deveriam ser formadas por pai, mãe e todos seus filhos, dentre os quais deveria haver pelo menos um filho homem, solteiro, com idade entre 10 e 14 anos. Há, ainda, a informação de que somente indivíduos que falassem mais de um idioma (búlgaros e gagaúzes) eram autorizados a emigrar. O camponês etnicamente romeno (não bilingue) era, portanto, impedido de deixar a região.
Diante da disseminação da propaganda brasileira pela região e da difícil condição de vida dos búlgaros e gagaúzes na Província da Bessarábia, no final de 1925, muitos agricultores venderam suas posses, quase sempre por valores baixos, ou alugaram suas terras, ou as deixaram sob os cuidados de parentes que optaram por não emigrar. Deram início, então, à busca de documentação que possibilitasse sua viagem transoceânica rumo ao Brasil.
Por Neide de Souza Praça (Família Volcov)
Fontes:
Grecov N. Tempos da Bessarábia. In: Cocicov J, Praça NS, Grecov N. Centenário da imigração bessarabiana búlgara e gagaúza, no Brasil, 1926 – 2026: sua história em três tempos. Aparecida: Ed. dos Autores; 2024. p. 53-100.
Praça NS. Imigrantes da Bessarábia: jornada em terras tropicais. São Paulo: All Print; 2016.