


Travessia
Por Neide de Souza Praça (Família Volcov)

Em 1925, o governo brasileiro buscava mão-de-obra estrangeira para suas lavouras de café. Então, articulou com o governo da Romênia a vinda, ao Brasil, de agricultores da Bessarábia. À época, a relação entre os dois países era incipiente, o que exigiu que os serviços diplomáticos da região fossem realizados na Embaixada do Brasil em Viena, na Áustria.
Um dos primeiros documentos a serem obtidos para o andamento do processo emigratório era a autorização do líder religioso da aldeia de residência da família interessada. Sua concordância possibilitava a continuidade do processo, e direcionava o emigrante a buscar autorização das autoridades de Bucareste. Em seguida, era necessário comparecer à Embaixada Brasileira, em Viena, onde o emigrante obtinha liberação para a viagem transoceânica.
Viena tinha ligação ferroviária com a maioria dos portos europeus, sendo esse o meio de transporte utilizado pelos emigrantes para chegarem aos portos de saída da Europa.
Em meio ao rigoroso inverno europeu, e portando a documentação de autorização da viagem, as famílias embarcavam em trens com destino aos portos europeus. Percorriam aproximadamente 2.500 km, cruzando vários países até o porto de partida para o Hemisfério Sul. Cruzavam, assim, a Romênia, a Áustria, a Hungria, a Alemanha, a França e a Itália. Ao transpor os limites de cada país, os emigrantes eram submetidos a rígidos controles sanitários, devido à recém ocorrência da Gripe Espanhola que dizimou milhões de indivíduos pelo mundo. Os procedimentos sanitários eram ainda mais rigorosos quando se avizinhava o momento de embarque nos portos.
No porto, os emigrantes embarcavam em vapores, e eram alojados em compartimentos de terceira classe. Os vapores possuíam grandes porões com capacidade para transporte de alimentos e de abrigo aos emigrantes. Dispunham de amplos salões com camas e beliches individuais, banheiros coletivos e mesas para refeições.
Tem-se notícias de que eram aproximadamente doze os vapores que trouxeram os imigrantes ao Brasil. Basicamente, os portos de saída da Europa ficavam na Itália - Gênova e Trieste -, na Alemanha – Hamburgo –, e na França - Le Havre e Cherbourg.
A travessia transoceânica tinha duração aproximada de 20 a 30 dias. Os passageiros enfrentavam mar revolto, extrema alteração de temperatura, doenças, mortes, tristeza, ansiedade e expectativas por uma vida melhor no novo continente. Diante de casos de morte, o corpo era embalado e jogado ao mar; procedimento assistido por familiares e outros passageiros com muita tristeza. Os mais vulneráveis às doenças e morte eram crianças, idosos e pessoas com comorbidades.
Dois foram os portos onde estes emigrantes chegaram ao Brasil: Santos, no litoral de São Paulo, e Rio de Janeiro, na então capital do país.
Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes bessarabianos búlgaros e gagaúzes não entendiam a língua portuguesa. Portavam passaporte familiar que os identificava como de origem romena, e assim foram identificados. Este fato apagou sua real origem no processo de imigração brasileiro. As diferenças do idioma e as dificuldades de comunicação associadas à falta de cuidado dos funcionários que faziam os registros de identificação pessoal geraram alterações na redação dos nomes de muitos imigrantes, o que levou membros da mesma família a terem sobrenomes redigidos de maneiras diferentes. Sem contar que também houve o aportuguesamento da maioria dos nomes próprios.
Os bessarabianos de origem búlgara falavam dois idiomas, a língua búlgara aprendida com os familiares no seu cotidiano, e o russo porque nasceram e viveram parte da vida na Província (Bessarábia) sob domínio da Rússia Czarista. Os gagaúzes comunicavam-se, ainda, pelo próprio dialeto.
Chegada
Aproximadamente 10.000 imigrantes bessarabianos de origens búlgara e gagaúze chegaram ao Brasil, em especial no ano de 1926.
Aqueles que aportaram no Rio de Janeiro eram levados para um período de quarentena em alojamentos na Ilha das Flores, próximo a Niterói. Liberados após alguns dias, embarcavam nos trens da Estrada de Ferro Central do Brasil, em vagões de segunda classe, com destino a São Paulo. Ao chegarem ao destino, eram transportados à Hospedaria dos Imigrantes do Brás.
Os imigrantes que chegaram ao Porto de Santos tinham seus nomes conferidos pela lista de passageiros do vapor que os trouxera e, em seguida, após cumpridas as exigências para o desembarque, eram liberados e acompanhados para embarque na Estrada de Ferro Inglesa, na qual fora feito um desvio do trajeto Santos-Jundiaí, e que dava acesso à Hospedaria dos Imigrantes do Brás, em São Paulo.
Por sua vez, reduzido número de famílias de imigrantes chegou ao Porto de Santos com contrato de trabalho estabelecido diretamente com o proprietário de terras, anteriormente à viagem transoceânica. Estas famílias foram, então, levadas diretamente do porto às fazendas do interior do estado de São Paulo.
Fontes:
Grecov N. Tempos da Bessarábia. In: Cocicov J, Praça NS, Grecov N. Centenário da imigração bessarabiana búlgara e gagaúza, no Brasil, 1926 – 2026: sua história em três tempos. Aparecida: Ed. dos Autores; 2024. p. 53-100.
Praça NS. Imigrantes da Bessarábia: jornada em terras tropicais. São Paulo: All Print; 2016.