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Um dia para não se esquecer jamais

Descendentes de búlgaros-bessarabianos e gagaúzos comemoram o centenário da imigração de seus ancestrais em festa emocionante no Museu da Imigração de São Paulo

                                                                                                                                 

Por Eduardo Rascov                                                                                                              Fotos Rodrigo Peticor

Era 25 de abril de 2026. O dia histórico começou cedo com a entrada ao vivo do repórter televisivo Pedro Bassan no telejornal Bom Dia Sábado, da TV Globo. Ele perguntou à coordenadora das festividades do Centenário búlgaro-bessarabiano e gagaúzo - Roseli Stainoff - sobre os povos que habitavam a Bessarábia e como eles haviam chegado lá?  Roseli respondeu basicamente que foi fugindo dos turcos e aceitando a proteção da mãe Rússia oferecida pela Tsarina Catarina II, a Grande, no final do século XVIII. Entre os povos que migraram para a Bessarábia naquela época estavam os búlgaros-bessarabianos e os gagaúzos. Em uma segunda inserção no Bom Dia, Sábado, Bassan mostrou um mapa da Bessarábia e contou como famílias de diferentes origens mudaram de país várias vezes sem nunca terem deixado de morar em sua cidade natal. Isso se explica por que aquele território foi mudando de administração estatal ao longo do tempo: otomano/russo/ moldavo/ romeno/ soviético/ ucraniano… Nem é preciso dizer que a instabilidade política tem como reflexo e consequência o conflito étnico sem fim, o que se vê até hoje na Guerra da Ucrânia, que atinge também o sul da Bessarábia, bem como o conflito no Transnístria, região rebelde da Moldávia. Por volta das 13h, quem chegasse no saguão de entrada do  auditório do Museu da Imigração de São Paulo para assistir a cerimônia era recebido com entusiasmo por Leni Armelin em trajes tradicionais de camponesa. O recém-chegado era então convidado a pegar com a própria mão um naco de um grande pão, passá-lo no sal búlgaro e comê-lo, como os povos eslavos gostam de fazer como símbolo de boas vindas e desejo de prosperidade.​​​​​​​​​​​​​​​​ ​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​ ​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

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E muitos chegaram, não só da capital, mas do interior e até de outros estados, como Mato Grosso do Sul. Em certo momento, aparece o Dr Jorge Cocicov e todos se aproximam para cumprimentá-lo. Cocicov é o grande inspirador do Centenário. Sem ele, muitos dos que estavam ali nem conheceriam sua história, não saberiam se eram búlgaros, russos, romenos, moldavos ou ucranianos. Cocicov é o pai do reavivamento búlgaro-bessarabiano no Brasil. Sua busca incansável pela verdade sobre as 141 crianças mortas na Ilha dos Porcos, em 1926, e mais dez adultos - todos envenenados por não saberem preparar a mandioca brava - deixou marca indelével em todos nós. 

Em seguida, Cocicov recebe das mãos de Pedro Dimitrov o livro editado por ele especialmente para o centenário. Belamente ilustrado, Raízes da Bessarábia contém uma síntese histórica, imagens de jóias comemorativas, a letra da música “Choram as ondas da ilha ferida”, de Jorge Cocicov e Ilson Caputo, e os poemas finalistas do concurso de poesia lançado no ano passado pela Associação dos búlgaros e gagaúzos bessarabianos. São gestos de memória, pertencimento e continuidade inspirados na obra pioneira de Jorge Cocicov.

“Choram as ondas da ilha ferida"

de Jorge Cocicov e Ilson Caputo,

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A festividade no auditório do Museu da Imigração foi transmitida ao vivo pelo youtube e a gravação pode ser conferida na íntegra no canal da associação. Vale a pena assistir o audiovisual elaborado por Jorge Cocicov, sempre ele, que começa aos 48 minutos do link de gravação. Dividido em três partes, o filme conta de maneira didática como era viver sob a opressão turca (“Nos tempos da Bulgária”), migrar e se estabelecer numa terra fértil sob a proteção da mãe russa (“Nos tempos da Bessarábia”) e, finalmente, emigrar novamente, desta vez para terras quentes, onde outras dores e esperança os aguardavam (“Nos tempos do Brasil”).​https://www.youtube.com/@AssociacaoCulturalPovoBulgaro As palavras na tela do computador são frias para relatar o sentimento das famílias brasileiras de origem búlgaras-bessarabianas e gagaúzas presentes na festa do centenário. Por exemplo, como falar da homenagem à Alessandra Ganev Russeff, de 106 anos, que tinha seis anos ao chegar ao Brasil, em 1926? Ela é uma das pessoas mais velhas do país! Outros “jovens” membros da comunidade também receberam uma moeda especialmente cunhada para a ocasião.

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 A festa foi feita de atos singelos, mas de grande significado para a comunidade, como a iniciativa de Sandra Ialamov que - depois de passar o dia anterior assando a tradicional torta bessarábia de abóbora  (tikvenik ou milinka) - a repartiu em pequenos pedaços e os distribuiu aos participantes do centenário com a seguinte frase “quem teve baba (avó em búlgaro-bessarabiano) sabe o que é isso”. As pessoas saboreavam e faziam aquela expressão de quem estava retornando à infância… Houve música instrumental, poesia búlgara recitada por criança, vinho e doces búlgaros e vários ítens da gastronomia eslava. Livros foram lançados, assim como xícaras e bótons customizados.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

O governo da República da Bulgária mandou Rayna Madzhukova, chefe da Agência Estatal para os Búlgaros no Exterior, prestigiar a comemoração do centenário. Ela veio acompanhada de Ani Georgieva, autora do livro em búlgaro recém-lançado cujo título pode ser traduzido assim: “Arte da Comunicação em Migração. Volume 1: América do Sul”. Madzhukova entregou a Cocicov uma placa oficial de seu governo em reconhecimento ao seu trabalho pioneiro. Os livros dele começam a ser traduzidos para o búlgaro e a circular no país europeu.​​​

Também esteve presente a cineasta Polya Stancheva, com sua equipe de filmagem, para fazer um documentário sobre o centenário dos búlgaros-bessarabianos do Brasil e seus descendentes. Ela é autora do filme "E Chegaram ao Fim do Mundo”, sobre a imigração búlgara à Argentina (do início do século XX e saídos do território mesmo da Bulgária e não da Bessarábia). Os descendentes brasileiros de búlgaros-bessarabianos e gagaúzos presentes no Museu da Imigração viveram um dia para nunca mais esquecer de celebração e  homenagens a seus ancestrais. Foi um dia histórico.Talvez alguns deles tenham saído de lá mais bessarabianos do que quando entraram. É que a identidade não é fixa: ao substrato cultural que diz quem somos podem ser acrescentadas outras camadas - camadas essas que se relacionam com o passado redescoberto, ressignificam o presente e constroem o futuro.

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