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Papinha da morte

Descendente de bessarabiano relata como foi a tragédia da colônia correcional da ilha dos Porcos e o trabalho pioneiro de Jorge Cocicov

 

Por Eduardo Rascov
 

Em 1926 chegaram mais de 10 mil imigrantes vindos da Bessarábia com passaporte romeno. A maioria era de origem búlgara, mas havia também gagaúzes. A região havia sido dominada pelos romenos em 1918, quando se aproveitaram da debilidade provocada pela Revolução Bolchevique do ano anterior. “Eles entraram com bandeira”, dizia minha baba, Maria Verchev, depois, Maria Rascov. A primeira providência foi proibir o ensino da língua russa. “Eu tinha uns dez anos, voltava da escola com amigos e atravessava uma ponte quando gendarmes romenos se aproximaram, arrancaram de mim o caderno e o livro de russo e os jogaram no rio. Saí correndo chorando”, contava. Essa foi uma onda migratória de curta duração. Os pioneiros chegaram em 1925, mas o grosso mesmo veio nos primeiros meses do ano seguinte até uma tragédia até hoje desconhecida pelo Brasil interromper esse fluxo.

                                           

 

Jorge Cocicov é filho de bessarabianos, como meu pai. Ele nasceu em Brás Cubas, distrito de Mogi das Cruzes, em 1935. Formou-se em advocacia e exerceu a função pública de juiz de direito em Ribeirão Preto-SP. Homem corajoso, era um advogado militante. Em 2014 prestou depoimento à Comissão da Verdade do município sobre a sua atuação contra a tortura, especialmente em um episódio de 1976. Naquele ano, em 3 de maio, recebeu uma denúncia e fez uma incerta no 2º distrito policial da cidade - e deu voz de prisão a policiais que torturavam dois presos políticos amarrados e pendurados no pau-de-arara feito bicho-preguiça. O fato teve repercussão imediata. O coronel Erasmo Dias, então Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, e agente duro da repressão, visitou-o na madrugada seguinte para tirar satisfação.

 

Esse personagem teve papel central na reagrupação dos descendentes dos búlgaros da Bessarábia que haviam chegado ao Brasil na década de 1920. Eram pessoas dispersas e cheias de dúvidas sobre as histórias que ouviam de seus pais. Careciam de reconhecimento. Na década de 1990, com a aproximação da efeméride de 70 anos dessa imigração, alguns membros da primeira geração de bessarabianos nascida no país, nosso herói entre eles, resolveram organizar uma mostra de fotos sobre a aventura de seus familiares. Em maio de 1996, 80 imagens foram expostas no Museu da Imigração, na Mooca, mesmo local que hospedava imigrantes na capital paulista no final do XIX e início do XX. A exposição virou um espaço de acolhimento de uma comunidade pulverizada e esquecida, invisibilizada pelos rumos inexoráveis da história do século passado.

 

No âmbito da exposição, a memória aflorava e com ela suas mágoas, dores e alegrias. Não passava despercebido a Jorge Cocicov uma recordação trazida por várias pessoas com a mesma origem. Toda família de búlgaros bessarabianos ouvira falar dela, embora fosse um assunto silenciado por nossos avós, que a comentavam em sussurros, entre eles e na língua deles. Era talvez a história mais triste já relatada por imigrantes no Brasil: a tragédia da Ilha dos Porcos.

 

Para entender o que aconteceu é preciso recuar um pouco no tempo. Em 1893 foi promulgada a Lei Contra os Vadios e Vagabundos, fruto da cultura eugenista e higienista da Velha República. A ideia era disciplinar os corpos das pessoas consideradas vadias e vagabundas, dos capoeiristas, dos menores abandonados e das prostitutas. Nem precisa dizer quem eram as principais vítimas. Basta lembrar que apenas cinco anos antes havia sido assinada a famigerada Lei Áurea, que “libertava” os escravizados. A população negra foi deixada ao deus-dará porque a ideia era substituí-la pelos imigrantes europeus.

 

Naquela época, o estado de São Paulo precisava de um novo lugar para abrigar os presos. Por isso, em 1904, foi inaugurada a Colônia Correcional do Porto das Palmas, na Ilha dos Porcos, a 8 quilômetros do Saco da Ribeira, em Ubatuba. Projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo, ela teve como modelo a Colônia Agrícola e Penitenciária de Mettray, na França, de 1838, marco do controle e da disciplina, analisada por Michel Foucault em Vigiar e Punir. Dez anos depois essa prisão no litoral norte seria fechada para ser reaberta apenas em 1928 com o nome de Colônia Correcional do Estado de São Paulo. Nos anos 1930 receberia presos políticos de Getúlio Vargas e durante parte da Segunda Guerra Mundial serviria como campo de concentração de japoneses. Em 1952 houve uma grande rebelião que resultou em 118 mortos e levou ao fechamento do presídio. Dois anos depois da rebelião, o local passou a se chamar Ilha Anchieta. Hoje é uma área de proteção ambiental, um parque estadual e atração turística.

 

Mas em 1926 os prédios estavam abandonados e apenas alguns caiçaras moravam na Ilha dos Porcos.  Quando imigrantes bessarabianos alojados temporariamente na Hospedaria do Imigrante se negaram a ir com os capatazes para as fazendas conforme haviam sido contratados, surgiu o problema do que fazer com aqueles gringos que falavam uma língua estranha e não entendiam uma palavra de português. Eles se recusavam a cumprir o contrato porque ouviram de um conterrâneo, que fugira de uma das fazendas, que haviam sido enganados e seriam submetidos ao que hoje chamamos de “condições análogas à escravidão”.

 

Decepcionados com o Brasil, os imigrantes amotinados exigiam serem enviados de volta à terra natal. As autoridades que resolvessem o problema. Mas o que aconteceu? Jorge Cocicov nos conta no livro Imigração no Brasil - Búlgaros e Gagaúzos Bessarabianos, lançado em 2005. De repente, apareceram policiais e indicaram com gestos e cacetetes que os bessarabianos deveriam entrar nos vagões de carga da composição que estava no ramal ferroviário que adentra a hospedaria. Sem entender o que estava acontecendo, os bessarabianos se agitaram e se  estabeleceu uma confusão - pais largaram as mãos de crianças e tentaram resistir, mães com bebês no colo choravam. Mas não houve jeito: dois mil bessarabianos foram arrastados e jogados como animais nos vagões sem janelas. O trem foi até o porto de Santos. De lá, de barco, os amotinados foram largados na Ilha dos Porcos. Os últimos caiçaras haviam acabado de ser retirados de lá.

 

Havia uma única intérprete, uma jovem de etnia russa que falava português. Por meio dela, os búlgaros bessarabianos foram orientados a ocupar as dependências do presídio desativado até que resolvessem cumprir os contratos ou arrumassem um jeito de voltar para suas terras. Prometeram a eles que as condições de hospedagem e alimentação seriam melhoradas e um médico chegaria em breve. Não sei se foi devido ao prolongamento das agitações tenentistas de 1924 - o país estava em estado de sítio devido à Coluna Prestes - ou por pura punição, o fato é que os bessarabianos foram deixados à própria sorte na Ilha dos Porcos. Cansados, dormiram no chão das celas abandonadas do presídio.

 

Nos primeiros dias faltava comida. O jeito foi apelar para a plantação de mandioca deixada pelos caiçaras. Colheram e prepararam uma papa, como imaginaram que os brasileiros faziam. O que os bessarabianos não sabiam é que aquela raiz era selvagem. A mandioca-brava contém ácido cianídrico que pode matar. Os bessarabianos não conheciam a técnica desenvolvida pelos indígenas para torná-la digerível, nem a forma como os caiçaras a preparavam. Não havia autoridade brasileira, eles estavam entregues a si mesmos numa ilha inóspita.

 

Resultado: após ingerirem a papa de mandioca-brava, imediatamente começaram a passar mal. Era uma papinha da morte. A primeira morte foi em 18 de abril de 1926. Nos dias seguintes morreram 151 imigrantes, sendo 146 crianças, a maioria envenenada pelo ácido cianídrico da mandioca-brava da Ilha dos Porcos. Essa é uma tragédia desconhecida, da qual os búlgaros bessarabianos nunca se recuperaram totalmente.

 

Jorge Cocicov ouviu tantas histórias narradas pelos descendentes dos sobreviventes da Ilha dos Porcos sobre esse episódio que resolveu escrever sobre ele. Procurou nos jornais da época notícias sobre tamanha tragédia, mas não encontrou nada. Até informavam sobre a rebelião dos bessarabianos e o transporte deles para a reclusão na ilha, mas nada sobre a morte das crianças.  Seria uma lenda criada por nossos parentes, se perguntava. Um antigo livro - Ubatuba: lendas e outras histórias, de Washington de Oliveira - chegava a sugerir que os imigrantes presos na Ilha dos Porcos foram mandados de volta para a Bessarábia.

 

Já aposentado da carreira de juiz e passando parte do tempo em sua casa de praia, em Ubatuba, Cocicov teve a ideia de consultar os cartórios da cidade à procura dos atestados de óbito daquelas 151 vítimas. Foi quando encontrou - no Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais, sede da Comarca de Ubatuba-SP - o registro dos óbitos ocorridos na Ilha dos Porcos, no livro C 11, fls. 14 e seguintes. Ele conta essa história na página 91 de seu livro:

 

“A falta de pronta assistência médica e internação hospitalar foi desastrosa para a administração pública que, até hoje, deve continuar carregando o fardo pesado de uma culpa ignominiosa ao tratar tão negligentemente da custódia de seres humanos colocados sob a sua responsabilidade. O médico Dr. Boanerges Pimenta havia sido recentemente nomeado e as mortes vinham ocorrendo desde o dia 18 do mês anterior. Atente-se, por outro lado, que os óbitos foram levados a registro muitos meses depois, exatamente no dia 1º de agosto de 1926, por declaração do então zelador da ilha Luiz Passos Júnior e atestados por aquele médico, registros esses feitos em batelada, isto é aos montes, que atingiram 156 termos de óbito, em inusitada sequência. Dos 2 mil imigrantes, entre 18 de abril e 25 de julho de 1926 morreram 151 pessoas, entre crianças e adultos - era tanta gente morta que “até formaram cemitério”, segundo Ana Dimov, que à época contava 10 anos. Os que sobreviveram logo depois foram devolvidos ao continente e muitos foram abandonados à própria sorte. ‘Então, veio o navio, nos pegou e nos trouxe de volta para Santos. Desembarcamos e agora cada um se vira. Aí ficamos livres, ganhamos a liberdade, mas agora tínhamos outro problema’, contou Demétrio Coev, que tinha 15 anos quando testemunhou aquela tragédia”.

 

Essa história poderia ter ficado no esquecimento completo não fosse a atuação do médico Boanerges Pimenta que, mesmo tendo chegado depois da maioria das mortes, fez questão de assinar os atestados de óbito. É verdade que ele descreveu como causa mortis não apenas o envenenamento por mandioca, como relataram os bessarabianos, mas também várias outras doenças, como “debilidade congênita”, “inviabilidade”, “desinteria”, “morte natural por causa indeterminada”, “morte natural sem assistência médica” e assim por diante.

 

Acima de tudo, essa história teria ficado no esquecimento não fosse a curiosidade e persistência de um juiz aposentado em busca de suas raízes bessarabianas. Responsável pelo despertar da bulgaridade em terras tropicais, Jorge Cocicov foi chamado de “padre Paissy da América do Sul”. Autor de História Eslavo-Búlgara, livro publicado no século XVII, o padre Paissy é considerado o pai da pátria búlgara moderna, já que sua obra foi responsável por não deixar morrer a “essência da bulgaridade” durante a ocupação turca do território nacional por longos cinco séculos.

 

Restava achar o cemitério mencionado por Ana Dimov. Não era a necrópole oficial da ilha, onde estavam enterrados caiçaras e militares que lá serviram. Mas um campo santo meio clandestino, longe das ruínas do presídio e das instalações erguidas posteriormente. Jorge Cocicov não descansou enquanto não o localizou. Ele contou com a ajuda de Walter Cardoso, um caiçara que desde criança frequentava a ilha. As ossadas estavam depositadas em covas rasas, a maioria era de corpos de humanos de pequenas dimensões. Não havia dúvidas, ali era o local onde foram enterradas as crianças e os poucos adultos bessarabianos que faleceram em abril de 1926 por negligência do Estado.

 

Jorge Cocicov salpicou aquele campo santo bessarabiano de cruzes ortodoxas, aquelas que têm, não uma, mas três barras transversais.  Em maio de 2024 um grupo de descendentes de búlgaros e gagaúzos bessarabianos sobreviventes visitou a Ilha Anchieta. Fui junto. Houve uma cerimônia religiosa na capela da antiga ilha dos porcos. Roseli Stainoff e Leni Dimitrov foram vestidas com roupas tradicionais de camponesas búlgaras. Um violinista fazia o acompanhamento musical. No final da missa, todos saíram em procissão até o campo santo dos anjinhos bessarabianos. As cruzes ortodoxas permaneciam lá. A vibração das cordas do violino produzia um som triste. Um sopro da natureza revoou as folhas caídas provocando arrepios feito assombração. 

Depois de uma longa jornada de trabalho, eis como se encontra o Cemitério da Ilha dos Porcos, na Ilha Anchieta , onde se encontram crianças búlgaras/ bessarabianas entererradas.

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