


Eles estão no meio de nós: o silencioso centenário da imigração de eslavos que colaboraram para a formação de Adamantina e Lucélia
Por Victor Hugo Silva Souza
Historiador
Há cem anos, um grupo um tanto quanto diferente dos numerosos italianos que compõe em grande cifra a ascendência do interior paulista, desembarcava no porto de Santos (SP). Eram russos, ucranianos e principalmente búlgaros que deixavam uma região histórica do leste europeu, a Bessarábia (atual Moldávia).
No século XVIII o czar russo concedeu terras na Bessarábia a colonos de outros países da Europa a fim de promover a ocupação da província. Povos de regiões marcadas por guerras e conflitos territoriais rumaram para essas terras férteis, desenvolvendo a agricultura e conservando suas tradições culturais, religiosas e até mesmo a língua.
Porém, em 1918, o Reino da Romênia aproveitou-se da Revolução Russa no ano anterior que provocara certa vulnerabilidade em diversas regiões russas, e anexou a Bessarábia ao seu território, passando a perseguir os povos que habitavam a área e a impor sua língua, valores e costumes. Houve em vários momentos o uso da violência contra os colonos e a imposição de uma série de medidas que dificultava desde as práticas religiosas ao acesso à terra.
No Brasil, nesse período, a marcha do café continuava rumando em direção ao extremo oeste paulista, onde cidades eclodiam diariamente em razão do cultivo do grão e das ferrovias que conectavam o interior ao litoral. Foi nesse contexto, que mais de quinze mil imigrantes deixaram a Bessarábia e vieram para o Brasil, fixando-se especialmente em colônias do interior paulista.
Uma dessas foi a colônia Balisa, um empreendimento imobiliário do Dr. Luiz Ferraz de Mesquita que antecedeu a fundação de Lucélia (SP). No ano de 1939, por meio da atuação do imigrante russo Nicolau Dachoff como corretor, Mesquita vendeu à prestação dezenas de lotes rurais a russos e búlgaros radicados no Brasil desde 1926. Há quem diga que Balisa foi a “célula mãe” de Lucélia, e por consequência, de Adamantina (embora os adamantinenses mais ferrenhos certamente conclamem sua autonomia desde os idos de 1948).
A colônia chegou a contar com uma Igreja Ortodoxa na década de 1940 com missas celebradas em russo pelo padre ortodoxo, cartório, armazém e cemitério próprio. Os agricultores produziam menta, café, cana-de-açúcar, milho e outras culturas, além de criarem galinhas, porcos e cabras. Com a chegada da ferrovia, a maior parte dos filhos dos imigrantes se mudaram para a zona urbana.

Família de imigrantes (Lukianchuk) posando para foto na colônia Balisa na década de 1950.
Fonte: Acervo pessoal de Carlos Vassil Lukianchuk.

Imigrantes eslavos tocando instrumentos e bebendo na Colônica Balisa.
Fonte: Acervo pessoal de Carlos Vassil Lukianchuk.
Os descendentes dos antigos colonos seguem vivendo em Lucélia, Adamantina, Pracinha, Osvaldo Cruz e hoje integram a sociedade regional, muitas vezes desconhecendo as próprias raízes. Segue uma lista de sobrenomes que você muito provavelmente conheça e que tem origem nesses imigrantes.
Agurtov, Bachtchivadji, Bancov, Berrov(w), Crivson, Cicianovski, Cavlak, Colomietz, Delibaltov, Delic, Dimitro(l,f), Grek, Kircov, Kushnir, Kuzmitch, Laurov, Lukianchuk, Malcov(f), Malechco, Maslov, Melnic, Mutafci, Nikifur, Nikitiuk, Poslednick, Paley, Peikov(f), Poshtarenko, Povliuk, Puchkov, Reguvich, Saladkov, Schnekis, Starikov(f), Stoianov, Trafaniuc,Trijic, Todorov, Vozniac, Ubak, Uzum, Zavadesk, Zveaghentov.
Fonte: Cocicov, Jorge. Imigração de búlgaros e gagaúzos bessarabianos. 2007.
Nesse ano, completa-se cem anos da chegada desse grupo que assim como outros, especialmente mineiros do norte de Minas Gerais e nordestinos sobretudo da Bahia, colaboraram para a formação de Lucélia, Adamantina, Pracinha, Osvaldo Cruz e região. Que belo seria comemorar! Ou seja, trazer à memória, quiçá em um ato público, as histórias que forjaram com mãos calejadas o que hoje somos.
Nota: Um especial agradecimento a Alecsander Souza Rodrigues pela parceria na pesquisa sobre a Colônia Balisa em 2018.