







Russos, búlgaros ou romenos?
Estabelecer a identidade dos imigrantes bessarabianos é um processo complexo devido às vicissitudes políticas e históricas
Os primeiros imigrantes bessarabianos chegaram ao Brasil há exatos 100 anos. Eram jovens adultos, já casados e com filhos pequenos, que se aventuraram a explorar os confins desta “terra onde se frita ovo direto no chão, de tão quente que é,” chamada Brasil, como eles pensavam na época. Ou então casaram-se antes de partir, como foi o caso dos noivos da foto que pertencem à família Dimov. A maioria desses imigrantes havia nascido sob o império russo, falava russo correntemente, era de religião ortodoxa e adorava o Czar. Em casa, porém, usava a língua de seus ancestrais - o búlgaro ou gagaúzo.
No “passaporte interno” constava que eram súditos do império russo, mas de nacionalidade búlgara. Possuíam todos os direitos e deveres do súdito russo, mas eram considerados búlgaros. Isso porque na Rússia vale o jus sanguinis (direito de sangue), ou seja, usa-se a genética como referência – o princípio é simples: “filho de peixe, peixinho é”, basta ter pai ou mãe de determinada nacionalidade para continuar pertencendo a ela, não importa onde se nasça.
Esse princípio é adotado até hoje por muitos países europeus, além da Rússia, como Portugal, Itália, Ucrânia etc. No Brasil adotamos o jus solis (direito de solo): basta nascer em solo brasileiro para ser considerado de nacionalidade brasileira. Faz sentido se pensarmos que este é um território que desde há pouco mais de 200 anos queria se tornar um estado nação independente, mas era habitado por povos originários e havia recebido camadas de colonizadores europeus, africanos escravizados e, posteriormente, imigrantes brancos e amarelos.
Mas essa situação provoca certa confusão entre os descendentes até hoje. Afinal, é mais certo dizer que esses bessarabianos que vieram ao Brasil há 100 anos com passaporte romeno eram russos, búlgaros, gagaúzos, ucranianos ou romenos?
Para uma resposta clara é preciso saber que a Bessarábia - hoje dividida entre a Ucrânia e a Moldávia - no século XVIII era uma região em disputa entre os impérios russo e turco otomano. Por volta de 1780, sob a déspota esclarecida Catarina II, a Grande, a Rússia logrou vencer uma das inúmeras guerras com a Turquia. Então boa parte dos tártaros que lá restaram foram transferidos para a Sibéria. Ato contínuo, a czarina implantou naquelas terras férteis uma política de colonização. Os povos que lá chegassem receberiam propriedades e financiamento. Essa iniciativa atraiu búlgaros (fugindo dos turcos), gagaúzos e alemães, entre outras etnias.
Os bessarabianos que resolveram partir para o Brasil na terceira década do século XX eram justamente descendentes daqueles primeiros búlgaros que nasceram sob o Império Russo, numa época que esses arranjos geopolíticos - os impérios - eram multinacionais, como o austro-húngaro e o próprio otomano.
Até o final de 1926 migraram para o Brasil levas de bessarabianos de origem búlgara, principalmente, mas não só; vieram também bessarabianos gagaúzos (uma etnia turcomana que abraçou o cristianismo), alemães e judeus (estes, posteriormente, a partir do final da década de 1920). É difícil estabelecer o número definitivo de bessarabianos de origem búlgara e gagaúza (em número bem menor) que se aventuraram em terras tropicais, mas calcula-se que foram cerca de 10 mil pessoas.
Esses bessarabianos vieram com passaporte romeno porque a Romênia havia tomado manu militari a Bessarábia dos russos após a Revolução Socialista de 1917. Eles conseguiram fazer isso facilmente porque a então nascente União das Repúblicas Socialistas Soviéticas experimentava uma guerra fratricida terrível, algo parecido com o que acontece hoje na Ucrânia. Os migrantes bessarabianos justamente fugiram da perseguição romena, que começava a fazer uma limpeza étnica naquelas bandas.
Os imigrantes bessarabianos de origem búlgara e gagaúzes, portanto, chegaram ao Brasil com passaporte romeno. Embora no documento constasse a nacionalidade “búlgara” ou “gagaúza”, eles eram registrados pelos funcionários da alfândega brasileira como “romenos”. Todos falavam russo e búlgaro, e alguns ainda o gagauz (língua de origem turca). Para os brasileiros, diante daquele povo de língua estranha, era mais fácil chamá-los de russos ou eslavos e assim eles foram se integrando à sociedade brasileira. Seus descendentes estão agora comemorando o centenário dessa aventura.