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Ecos da guerra

Como há cem anos, populações do leste europeu sofrem as consequências da guerra, que estendem seus longos tentáculos até o Brasil

Por Eduardo Rascov
 

-        Está vendo aquela pessoa ali no outro lado da rua? Me virei e vi uma mulher de

uns 70 anos pelo menos. Um lenço de cor esmaecida cobria-lhe a cabeça. A blusa e a saia eram de tecido grosso, pesado e escuro.

-        Sim, por quê? Perguntei a quem me apontava a mulher, um velhote que protegia a

cabeça com a kachúla de pele animal.

-        Por que ela comeu o marido.

-        O quê? Fiz, assustado, enquanto a senhora comilona entrava tranquilamente numa casa.

-        Isso mesmo! Ela deglutiu partes do esposo nos anos de fome da Segunda Guerra

Mundial. É verdade, acredite em mim, disse como para desfazer minha cara incrédula. Assou e comeu.

 

O marido havia morrido um pouco antes. Desnutrição aguda, disseram. Com a vitória dos comunistas, a mulher foi denunciada, julgada e condenada. Teve que cumprir pena, mas sobreviveu. Naquela época, as pessoas saíam procurando comida pelas ruas até cair. Muitos morriam pelo caminho.

O velhote de colete de couro de carneiro sobre camisa amarelada, longa e sem gola - que ele usava abotoada até o pescoço e amarrada na cintura por uma fita vermelha - era o marido de Zina Verchev, irmã de minha baba (avó). Não me lembro o nome dele. Diferentemente da História, que se quer documental, a Memória atualiza a disposição dos afetos. História é versão. Memória é acolhimento.

Eu tinha 22 anos quando voei para atrás da Cortina de Ferro. Era a primavera de 1983 na República Socialista Soviética da Ucrânia. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas só iria desaparecer oito anos depois. O Brasil vivia sob ferrenha ditadura e as pessoas me diziam para não ir lá, que na volta seria interrogado ou coisa pior. Mas a minha curiosidade era mais forte. Queria saber como era a terra dos meus avós, que tinham emigrado da Bessarábia para São Paulo em 1926.

Embarquei com Marco Rascov, meu diado (avô), para Frankfurt e de lá fizemos conexão para Bucareste. Ele voltava pela primeira vez à terra que havia abandonado 57 anos antes. Parentes nos pegaram de carro e nos levaram a Galatsi, na fronteira da Romênia com a URSS. Atravessamos o rio Danúbio de barco e desembarcamos em Izmail. Novamente parentes nos conduziram a Vinogorodnoe, que antigamente se chamava Gassan-Batar, uma aldeia no sul da Bessarábia. Chegamos na Páscoa Ortodoxa de 8 de maio no calendário gregoriano (ou 25 de abril no calendário juliano, usado até hoje nas Igrejas Ortodoxas). Em cada casa havia festa e comilança. As mesas foram postas nos quintais e cobertas por assados de cabrito, cumbucas de gelatina de peixe, feixes de cebolinha, garrafas de vinho, litros de vodka, cestos com ovos pintados de várias cores, cerejas, sementes de girassol... Todo mundo cantava e dançava modas tradicionais. Homens beijaram na boca, a mim e ao meu diado, como era o costume no reencontro e na despedida. Não sei se tanta alegria era pela ressurreição de Cristo ou pela volta do filho pródigo. Me senti no paraíso socialista.

Corta para 8 março de 2022, dia de luta das mulheres. Em qualquer lugar as mulheres são a maior minoria e todos nós precisamos brigar contra o sexismo, o machismo e o patriarcado. Mas há outras lutas no mercado, que correm paralelamente. Naquele dia recebi uma mensagem urgente de Moscou. Veio em inglês por uma rede social estadounidense. Eis a tradução:

“Olá, Eduardo, por favor, me diga se eu e minha família (Natasha e minha filha Polina), decidirmos ir para o Brasil, podemos contar com sua ajuda. Não queremos incomodá-lo, mas estamos muito preocupados com o que está acontecendo e prontos para correr riscos.  Como não vemos perspectivas aqui, planejamos negociar criptomoedas pela primeira vez, temos quase toda a experiência financeira e de negociação e a levaremos conosco. Um casal de amigos também quer imigrar. Estamos dispostos a tentar viver por algum tempo trabalhando na indústria de criptomoedas.  Acho que temos pouco tempo para sair do país, podemos não ser liberados. Os aviões não voam e precisamos de um visto para a Europa, que ninguém nos dará. A Europa está fechada para nós. Precisamos da internet e de ajuda para conseguir um cartão bancário. Nossos cartões não serão válidos. Visa e Mastercard pararam de aceitar cartões fabricados na Rússia. Não temos muito tempo, talvez alguns dias, para decidir o que fazer. Preciso de cerca de US$5.000 para minha família. O Instagram deve ser bloqueado hoje, o Facebook está bloqueado há muito tempo. Mas às vezes eu entro no computador do meu irmão, que mora na Moldávia. Então, ainda não sei o que fazer e o que acontecerá em seguida.”

Era Andrey Popovich, meu primo distante. Seis anos antes, ele e Natasha haviam me visitado em São Paulo. Trouxeram um adesivo de geladeira bem humorado: Putin apontava o dedo e dizia “estou de olho em você”. Andrey morava em Moscou, “a três estações de metrô da Praça Vermelha”, me disse sem disfarçar o orgulho. Ele era auditor da Federação Russa e a mulher, farmacêutica. Agora ele queria fugir da guerra de Putin. Em idade militar, enfrentar o ocidente não estava em seus planos. Nem desconfiava que a Rússia podia se dar bem, apesar das sanções, e que o mundo talvez não fosse mais unipolar. Andrey, Natasha e Polina não conseguiram sair do país. Hoje moram em São Petersburgo.

Conheci a mãe de Andrey, Evdokia Verchev, na cidade de Bender, Moldávia, na viagem de 1983. Ela é sobrinha da minha baba, cujo nome de solteira era Maria Verchev. Lembro que fiquei surpreso com o quanto o pai dele, um engenheiro, conhecia da cultura brasileira, especialmente a literatura de Jorge Amado. Claro, o escritor baiano foi comunista e chegou a ser eleito deputado federal pelo PCB, em 1946, embora tenha sido cassado no ano seguinte. Desde 1990 a região dos genitores de Andrey, de maioria russófona, se rebelou contra a Moldávia e se declarou independente. Espremido entre duas nações, o novo Estado se chama Transnístria, mas não é reconhecido internacionalmente. “Não posso visitar meus pais de carro, ônibus ou trem. A Ucrânia e a Moldávia não deixam ninguém entrar lá. Só de avião”, reclamou Andrey em 2016.

Tanya é a outra prima de meu pai. Encontrei-a em 1983. Hoje ela mora em Odessa. Quando pensava em se mudar para o Brasil, Andrey me deu notícias dela: “Conversei com a minha tia Tanya. Ela me contou que os russos bombardearam instalações militares. Ela viu do apartamento o clarão de navios explodindo à noite no porto. Essa situação já vinha se formando há muito tempo. Acho que era inevitável. A autoconfiança de ambas as partes, infelizmente, leva a situações em que todos se consideram certos. É uma tragédia, claro, mas, no contexto histórico, nada de novo - esse território sempre foi um lugar de interesses diversos. Tanya está feliz com a Rússia. Os búlgaros não têm nada a ver com a Ucrânia. Eles também são oprimidos. Acho que tudo será rápido, em poucos dias. Mas ainda sofreremos por muito tempo os ecos do colapso do Império Russo e da URSS…”

Andrey estava errado. O conflito se transformou em uma guerra de atrito, em que cada palmo de terra é disputado sob um céu coalhado de drones assassinos. Já dura mais de 4 anos. Tanya tem dois filhos homens. O que mora em Praga é a favor da Ucrânia e repete o discurso ocidental. O que sobrevive em Kherson, às margens do rio Dnieper, front da guerra, é a favor da Rússia. Tanya fica dividida, mas ela é falante de russo e ama Putin. “Tenho medo que façam mal a ele”, me confessou pelo facebook.

O conflito no Leste Europeu continuou estendendo longos tentáculos até a mim. Pela mesma rede social ianque, um ano depois de ter sido procurado por Andrey Popovich, recebi um pedido estranho de um tal Valery Nikolov. Ele diz ser meu primo distante, mas não o reconheço. “Estou indo para a guerra. É muito difícil para nós aqui e não há dinheiro. Preciso de um kit de primeiros socorros que custa 4.500 grívnias”. Pesquisei na internet e cada grívnia ucraniana valia na época mais ou menos R$ 0,1378. Não era muito dinheiro, bem menos do que Zelensky pede à União Europeia, mas não mandei e não mandarei dinheiro para o front, seja de que lado for.

Phillip Stepanovich Rashkov é O primo de meu pai que mora em Izmail, Ucrânia. Em 2020, ele e o filho vieram passar o carnaval em São Paulo e no Rio de Janeiro. Do leste europeu compraram ingressos para o sambódromo carioca e reservaram hotéis. Atuando na área de odontologia desde antes da queda da União Soviética, pareciam prósperos profissionais liberais. Tudo mudou no ano seguinte com a invasão russa. Ele não acreditou nas promessas de vitória de Zelensky e, preocupado por seu filho dentista ter idade militar, resolveu fugir com ele para a Bulgária. Atualmente, vivem em uma casa de veraneio em Varna, balneário do Mar Negro. Izmail, a bela cidade às margens do rio Danúbio pela qual entrei na União Soviética, há 42 anos, tem sido bombardeada por mísseis russos por ser um porto fluvial por onde entram armas ocidentais.

Russos, búlgaros ou romenos?

Estabelecer a identidade dos imigrantes bessarabianos é um processo complexo devido às vicissitudes políticas e históricas

Por Eduardo Rascov

Os primeiros imigrantes bessarabianos chegaram ao Brasil há exatos 100 anos. Eram jovens adultos, já casados e com filhos pequenos, que se aventuraram a explorar os confins desta “terra onde se frita ovo direto no chão, de tão quente que é,” chamada Brasil, como eles pensavam na época. Ou então casaram-se antes de partir, como foi o caso dos noivos da foto que pertencem à família Dimov. A maioria desses imigrantes havia nascido sob o império russo, falava russo correntemente, era de religião ortodoxa e adorava o Czar. Em casa, porém, usava a língua de seus ancestrais - o búlgaro ou gagaúzo.

 

No “passaporte interno” constava que eram súditos do império russo, mas de nacionalidade búlgara. Possuíam todos os direitos e deveres do súdito russo, mas eram considerados búlgaros. Isso porque na Rússia vale o jus sanguinis (direito de sangue), ou seja, usa-se a genética como referência – o princípio é simples: “filho de peixe, peixinho é”, basta ter pai ou mãe de determinada nacionalidade para continuar pertencendo a ela, não importa onde se nasça.

 

Esse princípio é adotado até hoje por muitos países europeus, além da Rússia, como Portugal, Itália, Ucrânia etc. No Brasil adotamos o jus solis (direito de solo): basta nascer em solo brasileiro para ser considerado de nacionalidade brasileira. Faz sentido se pensarmos que este é um território que desde há pouco mais de 200 anos queria se tornar um estado nação independente, mas era habitado por povos originários e havia recebido camadas de colonizadores europeus, africanos escravizados e, posteriormente, imigrantes brancos e amarelos.

 

Mas essa situação provoca certa confusão entre os descendentes até hoje. Afinal, é mais certo dizer que esses bessarabianos que vieram ao Brasil há 100 anos com passaporte romeno eram russos, búlgaros, gagaúzos, ucranianos ou romenos?

 

Para uma resposta clara é preciso saber que a Bessarábia - hoje dividida entre a Ucrânia e a Moldávia - no século XVIII era uma região em disputa entre os impérios russo e turco otomano. Por volta de 1780, sob a déspota esclarecida Catarina II, a Grande, a Rússia logrou vencer uma das inúmeras guerras com a Turquia. Então boa parte dos tártaros que lá restaram foram transferidos para a Sibéria. Ato contínuo, a czarina implantou naquelas terras férteis uma política de colonização. Os povos que lá chegassem receberiam propriedades e financiamento. Essa iniciativa atraiu búlgaros (fugindo dos turcos), gagaúzos e alemães, entre outras etnias.

 

Os bessarabianos que resolveram partir para o Brasil na terceira década do século XX eram justamente descendentes daqueles primeiros búlgaros que nasceram sob o Império Russo, numa época que esses arranjos geopolíticos - os impérios - eram multinacionais, como o austro-húngaro e o próprio otomano.

 

Até o final de 1926 migraram para o Brasil levas de bessarabianos de origem búlgara, principalmente, mas não só; vieram também bessarabianos gagaúzos (uma etnia turcomana que abraçou o cristianismo), alemães e judeus (estes, posteriormente, a partir do final da década de 1920). É difícil estabelecer o número definitivo de bessarabianos de origem búlgara e gagaúza (em número bem menor) que se aventuraram em terras tropicais, mas calcula-se que foram cerca de 10 mil pessoas.

 

Esses bessarabianos vieram com passaporte romeno porque a Romênia havia tomado manu militari a Bessarábia dos russos após a Revolução Socialista de 1917. Eles conseguiram fazer isso facilmente porque a então nascente União das Repúblicas Socialistas Soviéticas experimentava uma guerra fratricida terrível, algo parecido com o que acontece hoje na Ucrânia. Os migrantes bessarabianos justamente fugiram da perseguição romena, que começava a fazer uma limpeza étnica naquelas bandas.

 

Os imigrantes bessarabianos de origem búlgara e gagaúzes, portanto, chegaram ao Brasil com passaporte romeno. Embora no documento constasse a nacionalidade “búlgara” ou “gagaúza”, eles eram registrados pelos funcionários da alfândega brasileira como “romenos”. Todos falavam russo e búlgaro, e alguns ainda o gagauz (língua de origem turca). Para os brasileiros, diante daquele povo de língua estranha, era mais fácil chamá-los de russos ou eslavos e assim eles foram se integrando à sociedade brasileira. Seus descendentes estão agora comemorando o centenário dessa aventura.

A língua da baba e a essência da bulgaridade

Redescoberta ou reinvenção da identidade, o que importa é que os descendentes dos migrantes bessarabianos vivem um maravilhoso processo de etnogênese em terras brasileiras

 

Por Eduardo Rascov

Na adolescência, quando perguntavam de onde vinha meu nome, ficava sem jeito e respondia: “Do país dos ovs”. Não sabia ao certo o lugar de origem dos meus avós paternos. Seriam eles russos, como diziam ao meu redor? Ou búlgaros, como os imigrantes às vezes se chamavam? Ou eram romenos, já que entraram no Brasil com o passaporte da Romênia? Aliás, a Bessarábia é um país? Às vezes, quando estava sentado no sofá da sala assistindo televisão, meu pai me chamava e dizia: “Filho, pega a paduschka no quarto para mim”. Eu fingia não entender o significado da palavra paduschka e ele sempre repetia: “Filho, não lembra? Paduschka é travesseiro na língua da baba”. Mas exatamente qual era a “língua da baba”? O velho Ivan não tinha certeza e não se arriscava a dizer o nome. Ele havia sofrido muito na escola por falar português “tudo errado”, gostava de contar, quando entrou no curso primário atrasadíssimo aos 10 anos. Era o ano de 1942 e o Brasil se preparava para mandar soldados guerrear na Europa contra o nazifascismo.

A irmã mais velha de meu pai se chama Nádia. Coube a ela se aproximar mais dos vestígios da cultura bessarábicada no Brasil. Tia Nádia aprendeu sozinha a ler e a escrever no alfabeto cirílico. Era ela quem ajudava meus avós a redigir cartas aos parentes na Bessarábia. Certa vez, tia Nádia estava lendo um livro das Testemunhas de Jeová, religião estadounidense que minha família passou a seguir nos anos 1970. Havia na publicação trechos em diferentes idiomas. De repente, tia Nádia exclamou:

-        Olha aqui, essa é a língua da baba!”.

-        Tem certeza, tia Nádia?

-        Sim, absoluta. É o mais próximo que encontrei até hoje do jeito que a baba e o

diado falam.

Peguei o livro e vi letras cirílicas que pareciam grego. Não entendia nada, mas havia uma nota de rodapé em inglês que dizia: “Text in Macedonian”. Era macedônio! “Macedônio é a língua da baba”, gritei para o resto da família. Depois pensei: “Talvez a ‘língua da baba’ seja o búlgaro antigo, cristalizado na Bessarábia, com características semelhantes ao macedônio moderno”. Percebi que a luta identitária e a busca do reconhecimento, tão fortes na América Latina massacrada pelo colonialismo, também está presente em descendentes de minorias imigrantes que, apesar do privilégio branco, passaram o diabo na mão das elites locais, subordinadas à ordem capitalista e à divisão internacional do trabalho.

 “Viajei até a Bulgária e não entendi o que eles falam”, me disseram em 1983, na aldeia de Gassan-Batar. Apesar de se virem como búlgaros e ser essa a nacionalidade que constava no passaporte interno soviético, a língua falada pelos búlgaros da Bessarábia se distanciou do búlgaro moderno. Claro, os primeiros búlgaros chegaram na Bessarábia ainda no século XVIII, sob as asas da déspota esclarecida czarina Catarina II, a Grande, que reinou de 1762 a 1796. A tendência, nesses casos, é a cristalização do idioma falado pela comunidade isolada. 

Foram esses búlgaros bessarabianos, nascidos sob o Império Russo, portanto, fluentes em russo, que imigraram em 1926 para o Brasil, quando viram suas terras dominadas pelos romenos. Vieram com passaporte romeno. Daí a confusão. Nossos ancestrais eram russos, búlgaros ou romenos? A decisão de emigrar, tão doida para camponeses apegados à terra, e as desventuras no Brasil, principalmente, a tragédia da Ilha dos Porcos - esses são fatores que provavelmente tenham contribuído para o silenciamento auto-imposto desses imigrantes. Eles não queriam tocar no assunto. Isso fez com que seus descendentes se distanciassem da cultura original de seus pais. Esse apagamento identitário precisava acabar.

Há casos, por exemplo, de brasileiros descendentes de búlgaro da Bessarábia que procuraram a aldeia de seus ancestrais equivocadamente no território da Bulgária moderna. Ou de pessoas que, na dúvida, pediram a cidadania romena, pois conservavam os passaportes de seus avós emitidos por esse país. Outros se achavam ciganas, como a poeta Isabela Penov, autora do livro Do dilúvio entre tuas coxas, entre outros.

Em 1996 foi criada a Associação Cultural do Povo Búlgaro no Brasil - Bulgari com o objetivo de combater essa confusão e reavivar a história perdida. Mas essa mensagem não tem tocado os jovens brasileiros descendentes de bessarabianos, mais preocupados com outras questões identitárias. Vivemos num país racista cujo apagamento da população de origem indígena e africana é incomensuravelmente maior. O velho Ivan é um legítimo filho de búlgaros bessarabianos. Ele nasceu seis anos depois que os pais dele chegaram ao Brasil. Mas minha mãe é o resultado da mistura de várias etnias, como negra, indígena, portuguesa e alemã. Conheço muito mais a história do meu pai do que a da minha mãe. Ivan Rascov, meu velho, faleceu em 10 de abril de 2024, aos 91 anos. Muitas cenas brotaram na minha memória desde então. Entre as coisas dele, encontrei os quatro tomos escritos na década de 1960 por um primo da minha baba.

Hoje faço parte da comissão de organização do centenário, que será comemorado em 25 de abril de 2026. Em uma reunião virtual para discutir essa festividade, o ex-presidente da Bulgari, Nelson Gregov, se mostrou preocupado com a “essência da bulgaridade”. Ora, ele, seus filhos e netos são nascidos no Brasil e ainda assim estão à procura de certa bulgaridade perdida, seja lá o que isso for. Nem os búlgaros sabem. Rumen Stoianov, escritor e professor de língua búlgara mandou um e-mail para Jorge Cocicov com uma explicação, digamos, pouco esclarecedora sobre a sua origem: “Os búlgaros de hoje são uma fusão entre três povos: os trácios (deles as personagens mais conhecidas são Espártaco, Orfeu e Dionísio), os bulgáricos ou protobúlgaros e os eslavos. Os bulgáricos - eles não diziam que eram bulgáricos ou protobúlgaros, estas duas denominações são muito tardias, introduzidas pelos cientistas para diferenciar aqueles búlgaros, antes de se misturarem com os trácios e os eslavos - são oriundos duma parte do que agora é Afeganistão e, antes e depois de fundarem a Bulgária Danubiana, em 679, tinham outras formações estatais em outras partes” (sic).

A deriva da “essência da bulgaridade” começava quando os imigrantes aportaram no Brasil. Eles eram registrados como romenos e com nomes transliterados sem nenhuma regra, de tal forma que membros da mesma família podiam ter sobrenomes diferentes. Naquela época os eslavos eram vistos pelas autoridades como simpatizantes do comunismo. Temiam que houvesse entre eles agentes da Terceira Internacional disfarçados. As cartas trocadas com os parentes bessarabianos eram raras e ficavam retidas na censura e às vezes não eram entregues ou remetidas. A falta de comunicação com a terra de origem piorou com o passar do tempo, pois os filhos dos imigrantes não aprendiam a ler em cirílico. Os que nasciam aqui eram brasileiros por jus soli (direito do solo), adotado no país, mas considerados búlgaros por jus sanguinis (direito de sangue) adotado por Bulgária, Romênia, Ucrânia e Rússia. Boa parte abandonou a religião ortodoxa e se converteu a uma igreja evangélica tradicional, como os Batistas.

Há uma crise de identidade instalada. Os descendentes dos sobreviventes da tragédia da Ilha dos Porcos - e de outros que chegaram antes ou depois - estão por aí (algumas crianças nascidas na Bessarábia antes de 1926 ainda vivem!) em busca de uma identidade perdida no tempo e no espaço. Neste ano se comemora o centenário da chegada deles ao Brasil, encerrando a era das grandes imigrações ao país. É uma história esquecida. Atualmente, os descendentes desse povo tentam reatar laços com suas origens, mas encontram o território de seus ancestrais ardendo numa guerra fratricida. Acompanham com ansiedade as peripécias das negociações pela paz de Putin, Trump, Zelensky, Otan e União Européia. De alguma forma sentem-se parte da trama de sangue urdida na terra de seus ancestrais.  

Hoje sei muito mais sobre minha origem paterna do que sobre meus ancestrais maternos. A história deles foi apagada. Quase não ficaram rastros de parentes de minha mãe, Margarida Mafra. Talvez eu possa imitar os búlgaros bessarabianos do Brasil e, num processo de etnogênese, imaginar uma essência a ser resgatada. Porque no fundo identidade é escolha. Identidade é imaginação.  

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