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Novo lar

Por Neide de Souza Praça (Família Volcov)

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Em 1926, ao concluírem a travessia transoceânica, os imigrantes bessarabianos búlgaros e gagaúzes eram registrados e alojados na Hospedaria dos Imigrantes do Brás, na capital paulista, de onde partiam para as fazendas no interior do estado. No entanto, a busca pelo “Novo Lar” foi marcada por dificuldades e decepções. A trajetória da maioria das famílias, ao longo dos anos, permite definir quatro movimentos significativos:

 

Primeira onda

 

Os imigrantes permaneciam poucos dias na Hospedaria dos Imigrantes do Brás. Assim que fazendeiros ou seus representantes chegavam, contatavam as famílias que, em pequenos grupos, eram levadas às fazendas de café no interior do estado de São Paulo, onde serviram como colonos. Cada fazendeiro dispunha sobre o destino dos contratados. Alguns autorizavam que plantassem feijão e milho em meio ao cafeeiro; outros destinavam-lhes pequenas porções de terra para que plantassem o que desejassem, porém em sistema de meação. Toda a família trabalhava na lavoura, inclusive mulheres e crianças. A parceria com os fazendeiros era conflituosa. Vários eram os motivos que contribuíam para isto: dificuldade para saldar a dívida com o proprietário das terras, pois, ainda que este disponibilizasse alimentos para o sustento da família, seus preços eram exagerados, e a dívida do colono só aumentava; havia atrasos nos pagamentos a que o colono tinha direito; existiam multas, retenção de mudanças e de caderneta de registro de gastos e de bens, falta de contrato escrito, moradias em condições precárias, divergências com o administrador da fazenda, despejo violento. Tal situação levou muitas famílias a não esperarem o prazo legal mínimo de dois anos de contrato de trabalho e, clandestinamente, abandonaram as fazendas antes deste tempo levando seus poucos pertences. Seu destino eram as cidades da região ou a capital do estado.

 

Segunda onda

 

Findo o contrato de trabalho de dois anos nas fazendas cafeeiras, as famílias estavam livres para não mais

trabalhar no campo. Assim, deslocaram-se com destino às cidades onde passaram a viver. A maioria se instalou na capital paulista.Em 1928, porém, foram divulgadas notícias sobre a formação de sítios loteados em novas áreas em expansão rumo ao oeste do estado, que se destinavam à formação de pequenas propriedades. Eram terras a serem desbravadas e que contavam com facilidades de pagamento a longo prazo. Grande parte das famílias se interessou e voltou ao campo.

 

Terceira onda

 

Grupos de famílias de mesma etnia se agruparam e se tornaram vizinhas em pequenas propriedades rurais e formaram comunidades, ou colônias. Tornaram-se proprietárias ou meeiras. Ainda que nem todas as colônias fossem formadas exclusivamente por bessarabianos búlgaros e gagaúzes, mas também por outros povos eslavos e demais europeus, no estado de São Paulo, formaram-se as seguintes colônias: Aurora, Balisa, Buri, Central, Costa Machado, Esperança, Estrela, Granada, Nova Bessarábia, Nova Rússia, Paget, Prata, Setenta e Varna ou Feiticeiro.As colônias eram formadas por loteamentos de fazendas que originavam sítios de tamanhos variados, geralmente próximos a um riacho ou rio. As terras encontravam-se em meio à mata fechada, que foi desmatada pelos imigrantes para favorecer o plantio. Até a construção de suas casas com a madeira extraída da floresta, as famílias de agricultores moraram em barracas improvisadas ou sob grandes lonas. Estabelecida a moradia, as mulheres cuidavam dos afazeres domésticos e dos filhos, enquanto os homens trabalhavam na lavoura, de forma exaustiva e com inúmeras dificuldades. Predominantemente, plantavam arroz, feijão, milho, algodão e hortelã para consumo próprio e para a venda, porém, o escoamento da colheita era dificultado pelas estradas precárias e pelas longas distâncias dos centros de comércio. Como agravante, estas famílias não dispunham de atendimento médico regular, nem de apoio religioso. No entanto, o esforço dispendido não foi suficiente para que a maioria desses imigrantes se mantivessem no campo. Conviviam com reduzidos ganhos obtidos com as colheitas e com constante pressão de grileiros, que se apossavam das terras; ambas as situações levaram muitas famílias a venderem ou abandonarem suas propriedades e se estabelecerem em pequenas cidades do interior ou na capital.

 

Quarta onda

 

Na capital, os imigrantes procuraram residir em bairros onde havia presença de conterrâneos, tais como Vila Bela, Vila Prudente, Vila Zelina e Vila Alpina. Na cidade, os imigrantes bessarabianos búlgaros e gagaúzes e seus descendentes exerceram as mais diferentes profissões. Trabalharam no comércio, na indústria, nos serviços ou como autônomos. Atuaram em importantes e grandes obras no estado. Na década de 1930, trabalharam na reconstrução do Viaduto do Chá, no centro da capital. Trabalharam, também, na retificação do trecho da Estrada de Ferro Sorocabana, que interligava Mayrink e Maylaski. Entre os imigrantes que residiam na cidade de Mogi das Cruzes, SP, muitos atuaram na instalação da tubulação da Adutora do Rio Claro, que trouxe água da represa de mesmo nome, em Mogi das Cruzes, até o reservatório da Mooca, na capital paulista, com cerca de 40 km de extensão. Atualmente, os descendentes dos imigrantes bessarabianos búlgaros e gagaúzes estão na segunda, terceira e ou quarta geração. Atuam nas mais diversas profissões e em posições de destaque nos cenários científico, jurídico, artístico, cultural, militar, econômico, no ensino, na administração, na indústria, no comércio e nos demais serviços pelo país. São autônomos, profissionais liberais ou empregados nos setores público ou privado.

Fontes:

Praça NS. Tempos do Brasil. In: Cocicov J, Praça NS, Grecov N. Centenário da imigração bessarabiana búlgara e gagaúza, no Brasil, 1926 – 2026: sua história em três tempos. Aparecida: Ed. dos Autores; 2024. p.101-28.

Tempos no Brasil, parte I e parte II, vídeos na plataforma do YouTube, canal:

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